terça-feira, 3 de setembro de 2013

Entre o câncer e o engasgo



Na semana passada soube do falecimento de um amigo de meus pais.
Morte estúpida, diziam. Causa: engasgo. 
Um homem absolutamente saudável foi comer e engoliu errado.
Um pedaço de frango foi para a traqueia, em vez de ir pelo esôfago.
Desespero. UTI. Morreu. Engasgado.
Há uns quatro anos, meu primo, Marcelo, de pouco mais de 30 anos,
também morreu.
Morte estúpida, diziam. 
Morreu de morte matada. 
Estava no semáforo, com a porta do carro destrancada, 
quando foi surpreendido por um bandido em fuga. 
O bandido, ao ver que os guardas iam alcançá-lo, deve ter pensado:
- eles me pegam, mas eu mato esse um.
E deu um tiro à queima-roupa, na nuca. Ele morreu. 
Minha amiga Helena, do colégio, apareceu, há uns 4 anos, 
com um câncer no útero. Câncer raro, diziam.
E avançado.
Helena fez quimio, enrolou a cabeça em lindos véus durante um tempinho
e não morreu.
Está linda. Com os cabelos renovados. Vida pulsante.
Agora é a vez de outra amiga ter outro câncer, 
que não mata mais que um pedaço de frango na traqueia.
Ela fará quimio. Enrolará o cabelo em lindos turbantes coloridos
E verá seu cabelo crescer mais bonito ainda. 
Renovado.
Viva pulsante.
A morte não se anuncia pela gravidade da doença.
A morte é uma condição definida por muitas ações indefinidas,
não uma consequência ocasional.
O melhor a se fazer é curar a doença.
Rir da doença como se ri do engasgo.
Acreditar nas ações indefinidas,
que resultam, quando frutos de alteridade e amor,
na condição definida de VIDA.
Rosa Brasil

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